Residência artística realizada na Chapada dos Veadeiros tem viés Socioambiental e valoriza paisagens


Atualmente no Brasil estão cada vez mais presentes as “residências artísticas” envolvidas com arte contemporânea nas suas diversas manifestações, elas apresentam características e interesses bem diversificados. Algumas iniciativas tem caráter experimental, colaborativo e de convívio intercultural. Estas visam a construção de redes com novos valores em relação à economia e a política, a psique e a afetividade, as estruturas físicas e sociais, a arte e o artista. São propostas de vanguarda que trazem a tona novos paradigmas e soluções urgentes para a existência e a organização social, questões levantadas na contemporaneidade, resignificando o pensar e o fazer artístico em ressonância com outras áreas de conhecimento.

O projeto foi contemplado pelo prêmio dedicado à Dança do Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás, SEDUCE 2016 e Governo de Goiás. Tem concepção e coordenação artística de Eva Maria Maria, dançarina, artista visual, arte educadora e mãe. Idealizada com a intenção de que o aspecto profissional se desenvolva em harmonia com os ritmos da natureza humana e em ressonância com o meio-ambiente. Observar as estações do ano, as influências da Terra, do sol e do ciclo lunar, uma vivência para mergulhar em uma ecologia profunda.


Foto de Mel Maurer, filmagem do videodança Silêncio e som, Eva Maria no Morro da Baleia

A residência artística concretiza-se através de um Núcleo de artistas e profissionais independentes, provenientes de várias regiões do Brasil e do mundo, pessoas que apresentam em seu percurso um profundo interesse em criar a partir de aspectos essenciais para uma melhor qualidade de vida.

O Núcleo é composto por profissionais de diversas áreas, de acordo com a especificidade de suas atuações, dança, áudio visual, fotografia, música, gestão e produção, com atuações trans e interdisciplinar. A equipe cinematográfica é composta por Mateus Almeida como cinegrafista e direção de fotografia, Renata Franco é a montadora de imagem e autora da trilha sonora do videodança Silêncio e som, uma cocriação no núcleo. A metodologia de ensino aprendizagem artística foi concebida por Pilar Echavarria, Mel Melissa Maurer fez a cobertura fotográfica, Victor Biasolo Rissatto é responsável pela comunicação, e Carol Saraiva atua como gestora e facilitadora da autogestão. Além da participação de outros profissionais que se aglutinaram por interesse em aprender, colaborar na gestão e participar nos processos criativos durante a residência artística.

São pessoas que tem em comum a intenção de construir horizontalidades nos fazeres artísticos, por uma "desierarquização" dos padrões de poder predominantes nas estruturas da sociedade, neste caminho, permeia a busca por processos experimentais, colaborativos e cooperativos, com ênfase na arte como aspecto intrínseco à vida, guiado a partir das relações humanas, pautadas pelo autoconhecimento na relação com a comunidade e o meio-ambiente, visando a construção de redes de apoio profissionais e afetivas.


Foto de Mel Maurer, site specific com Andrea Barbour, Eva Maria, Francesco Pasalacqua, Isa Barreto, Jonatas Campos, Mar Mendes.

Porque na Chapada dos Veadeiros?

Com a intenção de nutrir processos de criação unindo a relação entre as artes, as ferramentas sociais e a ecologia. A primeira edição da residência artística aconteceu na Chapada dos Veadeiros no intuito de dar visibilidade ao Cerrado, bioma que abriga as nascentes de três importantes bacias hidrográficas, é considerado o berço das águas e tem uma biodiversidade extremamente abundante. A maior savana do planeta é um dos hotspots mais ameaçados do mundo por setores econômicos do agronegócio como a monocultura, a pecuária e a retirada de madeira para carvão, estas atividades vêm descaracterizando a Chapada, podendo prejudicar sua economia local, absolutamente dependente da preservação de sua paisagem natural.

Ressonâncias da dança – residência artística se desdobra no fortalecimento da economia com foco no turismo ecológico e de experiência, contribuindo com as principais pautas socioeconômicas e ambientais da região, de modo a amplificar e fortalecer a área artística e cultural no centro do país, assim como, fomentar possibilidades de existência que preservam a natureza e denunciam a sua destruição.


Foto Mel Maurer, making off do videodança Silêncio e som, Maria Paz e Mateus Almeida

Ressonâncias da Dança A primeira edição de Ressonâncias da dança realizada em Alto Paraíso de Goiás entre abril e maio de 2018, recebeu participantes locais, provenientes de cada uma das regiões do Brasil, e internacionais; um espaço tempo dedicado para a formação, criação e compartilhamento do fazer artístico. Tendo a intenção de criar e fortalecer redes de apoio profissional entre as pessoas que estão se inserindo e artistas consolidados.

Foram 28 dias imersivos nas paisagens mais intimas da natureza humana, na paisagem natural e na arquitetura local. Contando com duas fases, a fase rural foi um mergulho no Bioma do Cerrado, a fase urbana aconteceu no centro da cidade com pouco mais de 3 mil habitantes no interior de Goiás, marcada por um abismo social entre os chamados “alternativos”, empresários e a população “nativa”. Aspecto bastante presente nas cidades Latino Americanas que levam consigo os resquícios do colonialismo.


Foto Mel Maurer, site specific na Praça do Skate, criança observa a performance de Warla Paiva e João Lima Neto.

Ressonâncias é uma proposta de ação social, através da profissionalização artística, da consciência corporal e das relações sociais. Com a intenção de possibilitar o acesso à formação em dança no interior de Goiás, e criar uma rede de profissionais em diferentes níveis de carreira em dança no Brasil e internacional, de maneira a possibilitar que cada participante seja apoiado para desenvolver-se enquanto profissional da arte, ampliando seus saberes para aplicar em diversas áreas do conhecimento.

Mais de 30 dançarinos criaram através das vertentes de dança improvisação, da poética da dança Butoh, da fisicalidade do Contato Improvisação, do universo subaquático da Dança Líquida (dança na água), composições artísticas realizadas com práticas de educação somática como o Movimento Continuum e o Movimento Autêntico.

O momento de criação voltados para a performance sendo resignificado como um processo que vai além de uma estética dualista do belo ou feio, se configura como uma busca pelo desenvolvimento do artista em processo de autoconhecimento enquanto profissional que se aprofunda na relação consigo mesmo e com o outro, integrado ao meio-ambiente em estado de presença. A dança nasce na percepção de uma escuta sensível, na autenticidade do movimento.


JAM de Dança Líquida, sessão de improvisação de dança na Água.

As propostas do Laboratório de cocriação se iniciaram com a prática do Movimento Autêntico, que envolve a presença de um observador e a expressão de uma pessoa que se move, visa a percepção no momento presente, sem julgamentos, permitindo aflorar conteúdos doinconsciente, integrados ao consciente através da criação artística.

O espaço não convencional como espaços públicos e paisagens naturais foram explorados durante toda a residência artística, ampliando as possibilidades da relação dos artistas e do público com o ambiente. Através da criação da dança realizada no contexto urbano e no contexto de natureza, a espacialidade expandida como proposta de site specific, arte desenvolvida para um local especifico, ampliando as fronteiras entre a arte e a vida, e dissolvendo barreiras entre o público e o artista.

As propostas de criação e apresentação artística construídas ao longo da residência com Pilar Echavarria e Pipaluk Supernova, as ;Instalações para Rituais sem sentido lugares específicos onde os residentes criaram cenários; assim como os elementos que compõem os figurinos, a iluminação e o movimento corporal se desdobraram em relação com a paisagem e a arquitetura local.

A apresentação final da residência artística Ressonâncias da dança contou com uma Mostra de performances e a exibição do videodança Silêncio e som. Os locais de apresentações foram escolhidos junto com uma proposta artística de pesquisa da arte em locais públicos, o Ginásio de Esportes, é um local de maior frequentação popular, alcançando o público de menor acesso às manifestações culturais. A apresentação das performances teve inicio na “Praça do Skate”. Uma praça, uma pista de skate, as ruas e calçadas, árvores e canteiros, uma construção nunca concluída da igreja matriz em ruínas, uma quadra de areia e um Ginásio de esportes. A arquitetura local foi transpassada, criações feitas in situ, com suas especificidades influenciando, sendo influenciada e inspirando a dança e as performances.


Filmagens do videodança Silêncio e som, Ainara Lopez em conexão telúrica no Morro Nude.

Quais são os interesses e as intenções em comum entre os profissionais envolvidos na concepção de residências artísticas?

Nas residências artísticas mapeadas e descritas a seguir existe a intenção de encontrar artistas com afinidades profissionais para juntos se nutrirem, compartilharem pesquisas, práticas e informações, vivenciarem processos criativos, oxigenar a produção, e realizarem cocriações em colaboração.

O que move profissionais a se reunirem em formato de residência para criarem?

O que move a RESSONÂNCIAS DA DANÇA a criar em residência é o desejo de aproximação entre a arte e a vida. Vivenciar as linguagens da arte no cotidiano; permear as atividades relacionadas à sobrevivência com poética e ética, consciência e mistério, construção e reconstrução, excitação criativa e quebras de padrões. Experimentar processos colaborativos em arte, com a intenção de desconstruir padrões hierárquicos ao experimentar criações colaborativas, dentro de uma proposta de horizontalidade entre os profissionais envolvidos. Experimentar processos de autogestão com a abertura para a participação de todos os envolvidos nas decisões. Perceber o processo artístico como processo de autoconhecimento e transformação social.

Algumas residências artísticas que estão acontecendo atualmente no Brasil.

A Entre Serras - Residência artística e Poéticas da Sustentabilidade é realizada em uma área rural de Minas Gerais, surge da necessidade e de interesses mútuos em expandir o fazer artístico para fora dos grandes centros em direção a uma política de projetos comunitários, ecológicos e sustentáveis. Idealizado pelas artistas e dançarinas Aline Bernardi, Carol Pedalino e Dasha Lavrennikov, que assinam como Núcleo Gestor, o programa propõe o deslocamento como uma prática de ressignificação, numa perspectiva politica de investigar e praticar arte no campo, o que destaca o desejo de resgatar e reinventar valores deste contexto. Busca-se um diálogo com áreas do conhecimento que levem em conta processos holísticos e a construção de um modo de vida que enriqueça o sentido de autopoiésis.

"A permacultura, a ecologia profunda e a economia solidária e outros saberes de vanguarda, se integram em processos artísticos e alimentam questões estética-política-ética na busca de soluções e ações que sustentem as mudanças dos paradigmas ambientais econômicos e sociais atuais." [Entre Serras - Residência Artística e Poéticas da Sustentabilidade

O instituto Sacatar com sede na Bahia tem seu diferencial previsto em sua missão, através da proposta de estimular a interculturalidade entre os artistas residentes e a comunidade, na visibilização da cultura local em conexão com os residentes; e o incentivo para desenvolver vertentes artísticas que estão além das classes sociais e fronteiras nacionais.

Permeável corpo artístico é uma residência artística idealizada por Ana Alonso, acontece entre julho e setembro de 2018 em Garopaba, Piçarras e Florianópolis. Em duas etapas: a primeira é a residência artística em: um tempo de aprofundamento, intercambio e criação entre as artistas mulheres sul americanas convidadas. A segunda etapa é para a circulação, expansão e partilha da residência artística com atividades abertas e gratuitas ao público. Durante todo o processo elas visam pesquisar relações entre arte e pertencimento de modo cartográfico e experiencial. Improvisação, sensação, percepção, criação e colaboração em Dança, se reconhecendo como seres históricos a partir da dança desenvolvida na América Latina, com a intenção de fortalecer espaços independentes para a arte, possibilitando autonomia.

“A gestão de recursos públicos e privados, bem como o reconhecimento dos diversos recursos presentes em processos baseados na economia solidária vem sendo uma demanda social importante na medida em que facilita a circulação e a realização do trabalho em arte de modo mais autônomo.” Ana Alonso - Permeável corpo artístico.

Quer saber mais sobre RESSONÂNCIAS DA DANÇA acesse:

www.ressonanciasdadanca.com


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