Expansão Agrícola devasta Cerrado além de ser atividade economicamente insustentável a longo prazo



O governo brasileiro se orgulha nacional e internacionalmente de ter reduzido o desmatamento no Brasil. Apresentou um plano de metas para a conferência do clima de Paris (COP 21) no fim de novembro, que inclui redução nas emissões de gases que aquecem o planeta apostando em mais queda no desmatamento. Só que as vitórias passadas e as promessas futuras consideram apenas a Amazônia. O Cerrado, outro importante bioma brasileiro, ficou de fora. O problema é que o cerrado, que vem sendo devorado pela expansão sem cuidados da agricultura, tem grande importância para o país. Além de abrigar uma riqueza biológica única, é responsável pelas nascentes que alimentam 8 das 12 bacias hidrográficas do Brasil. Destruir o Cerrado é secar o Brasil. E matar as bases que garantem o equilíbrio ecológico para a própria agricultura. É o que explica Rafael Loyola, diretor do Laboratório de Biogeografia da Conservação, da Universidade Federal de Goiás.

"O Cerrado é o bioma mais ameaçado do Brasil hoje em dia. Isso se deve a uma combinação de pouca proteção (apenas 11% do Cerrado é coberto por reservas ou unidades de conservação, comparados com quase 50% da Amazônia) e uma alta vocação agrícola, com terrenos planos e de fácil irrigação. Isso atraiu a agricultura em grande escala e a pecuária, de maneira que milhares de hectares são desatados por ano para plantio ou criação de pastagens."

O Berço das Águas

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul (fica atrás somente da Amazônia) e ocupa uma área de 2 milhões de km2. Esse valor corresponde a cerca de 22% do território nacional. Localizado na porção central do Brasil, ele contribui para formação de importantes bacias hidrográficas, como as dos rios Tocantins-Araguaia, São Francisco, Paraguai, Paraná e Parnaíba e abrange 10 das 12 grandes regiões hidrográficas do país. A água proveniente dessas bacias hidrográficas é crucial para o abastecimento humano, manutenção de funções em outros biomas como o Pantanal e a Caatinga e para o fornecimento de água para a indústria, agricultura e navegação. Além disso, várias usinas hidrelétricas do Brasil usam águas provenientes da região de Cerrado, tais como Itaipu, Tucuruí, Iha Solteira, Xingó e Paulo Afonso.

Por não ser tão protegido como a Amazônia (que tem 18% de suas terras desmatadas), a vegetação característica do cerrado tem dado lugar a fazendas de soja, algodão e pastagens para gado. De acordo com o último levantamento feito em 2010 pelo Ministério do Meio Ambiente, metade da área nativa do Cerrado já foi desmatada para agricultura e pecuária, que hoje contribui com uma parcela de 23% do Produto Interno Bruto brasileiro. Essas modificações na vegetação nativa podem ter graves consequências para a economia e para o meio ambiente, como alerta Paulo Tarso de Oliveira, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul que pesquisa a influência da ocupação e uso do solo na região.

“Não se pode desmatar de forma desordenada e fazer ocupação do solo sem entender quais as consequências disso.”


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